Por que o livro não tem um final explícito? Flora foi ou não contaminada pelo vírus HIV?
O final aberto é proposital. Nem eu mesma sei se Flora foi contaminada – espero, sinceramente, que não. O que eu quis mostrar é o RISCO. O risco que todo mundo corre se bobear e acreditar que “o amor protege”. No caso da Aids, não protege. Ao contrário, é uma armadilha. Hoje, transar sem proteção é o que chamo de entrar numa “loteria às avessas”. Você pode sair ileso ou morrer. Vale a pena correr esse risco?
Então é o leitor que deve imaginar o que acontecerá com Flora?
Isso mesmo. O drama de Flora é a dúvida. Ela nunca terá respostas para as atitudes de Leo, pois Leo está morto. Flora só tem uma certeza: ela se expôs ao risco e poderá pagar caro. Confesso que, ao escrever o final, tive a tentação de incluir uma cena que traria alívio ao leitor e a mim: Flora recebendo o resultado negativo do exame. Mas eu não podia fazer isso. Seria contribuir para difundir a idéia de que... “Ufa! Pus a mão no fogo, mas não me queimei!” Essa postura irresponsável é que faz se multiplicarem as contaminações por HIV.
O livro se baseia em fatos reais?
A história é fictícia, mas para escrevê-la li e pesquisei muito. Freqüentei um curso no Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, em que especialistas em Aids orientavam o público leigo. As mulheres são as maiores vítimas do vírus HIV. Mulheres monogâmicas, que têm só um parceiro. Mas o parceiro pode não ser fiel como elas, ou ser ou ter sido usuário de drogas injetáveis. O portador do vírus não traz isso escrito na testa. Às vezes, nem ele conhece sua condição. Escrevi Amarga herança de Leo na esperança de alertar os jovens para interromper essa corrente terrível.
Leo se envolve com drogas por não se dar bem com o pai ou por influência dos amigos?
Especialistas dizem que, em geral, há uma combinação de fatores. Talvez exista uma predisposição para a dependência em algumas pessoas. O que eu tinha em mente ao criar Leo era fazer dele um garoto tão interessante, bonito, inteligente e talentoso (“Um menino que tinha jeito para tudo, podia fazer na vida o que quisesse”) que as meninas pensassem: “Com ele eu transaria”. É onde mora o perigo...
Por que a palavra Aids não aparece no livro?
Mas fica claro que é disso que estamos falando, não é? Esse é um texto mais elaborado, que utiliza recursos de literatura adulta. O jovem que o compreender será capaz de ler qualquer livro para adultos. Omiti a palavra Aids como forma de trazer para a linguagem o tabu que ainda existe em torno da doença. Muita gente a esconde ou evita chamá-la pelo nome.
As músicas da Epidemia têm uma razão especial para estar no livro?
Sim. Foram sugeridas pelo meu sobrinho Mário Said Vieira, que é músico formado pela Unicamp, em Campinas (SP). Pedi a ajuda dele para criar o repertório do grupo. Para minha surpresa, Mário escolheu o Sargeant Peppers, dos Beatles, e The Doors, de Jim Morrison, que foram ídolos da minha geração. Já Cazuza entrou por ter sido o primeiro artista brasileiro a assumir publicamente que estava contaminado pela Aids. Raul Seixas era bem doidão e tinha tudo a ver com Leo, e a música João e Maria, de Chico Buarque (“Agora eu era o herói... ”), tinha tudo a ver com a história. Bem, na verdade eu também adoro essa trilha musical. Foi fácil atribuí-la à Epidemia.
DZ3.
© Todos os direitos Reservados. Isabel Vieira.2008